26-04 2015

A do vizinho é mais verde

por Cris Lavratti

Crônica publicada em março/2015

Que tal falar do umbigo alheio? Sim, pois do meu nem pensar! “Olha ali aquela senhora, jura que tem vinte anos a menos e continua tirando proveito da minissaia. Pobre Mary Quant.” “Inconcebível aturar esse casal do andar de cima proferindo gemidos ensurdecedores antes das sete da manhã. Chama o síndico.” “Ela devia guardar todo aquele excesso de gostosura numa calça 54 e não nesta oito números a menos. Um colírio, por favor.” “Mira aquela criança se atirando no chão e chorando incansavelmente, não se faz mais pais como antes, falta-lhes voz ativa….”

Para apontar o que não está certo no outro, nossa mão com seus cinco dedos revoltados, transforma-se numa arma calibre destruidor e sai atirando a queima roupa, doa a quem doer. Ganhar tempo com a vida que não é a nossa, distrai, envolve, acabamos isentos de nossas próprias hegemonias. Afinal, somos tão perfeitos assim?

Quem conta os dias a partir do seu vizinho, pode estar tendo uma vidinha tão mais ou menos, que a do objeto torna-se mil vezes mais interessante. E assim, o sujeito vai deixando de lado o seu caminho e na constância, perde a cor, o rebolado e até a alma.

Alguns usam como desculpa o bem comum e zelam pela sociedade, pelo bairro, pelo condomínio. Será? Outros carregam a moral e os bons costumes na bandeira. E de nada adianta argumentar, a razão lhes é inerente, algo extremamente sombrio, mas eles não entendem assim. Estão certos e pronto. Há ainda alguns que usam como escudo sua própria posição social, para denegrir, difamar e criar teias cada vez mais escabrosas, para estes, o outro é somente um fantoche no palco da vida.

Acho desconcertante dar de cara com pessoas assim. É quase como um soco no estômago, falta ar e mais ainda, enjoa. “Hugo” que nos salve desta odisséia. Aqui, eu pergunto os por quês? Alguém sabe? Alguém viu? Ah! Sim. Aqueles que estão vivendo suas vidas não estão por dentro dessa babilônia. Estão ocupados demais com suas famílias, seus trabalhos, seus amigos, suas viagens. Estão preocupados em ajudar a quem precisa. Não sabem fazer o gesto da tal arma com as mãos, eles são o que são e não o que esperam deles.

É deles que os engatilhados falam, comentam, debulham. Os ancorados habitam na vida dos forasteiros, que por sua vez, vivem suas jornadas sem olhar a quem, sem perceber que estão sendo observados, banalizados, execrados. Exageros à parte, o nocaute existe e é fato consumado no diário da vida. Sabemos!

Estes que estão livres das amarras, aproveitam a vida com clareza. Sabem que fazem a diferença nas atitudes que constroem pontes. Já os outros, alimentam-se de si. Narciso e Cinyras  os inspiram, a vaidade e o ego pairam. Crêem que o mundo todo conspira contra eles e a pobre da Levis  501 é que leva a culpa. Afinal, quem inventou o jeans atentou contra a beleza do mundo, segundo a minha avó.

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