19-03 2016

Bordado da vida

por Cris Lavratti

Maria bordou no ventre.

E agora, no passar das luas, o bordado fez-se inteiro.

E com ele, uma pontada.

Começava por trás, pelas costas.

Expandia até meu ventre.

Fazia-se a dor.

Dura dor, endurecia. Demorada.

De repente, o alívio. O respiro. A consciência.

Um ir e vir constante, cada vez mais constante.

Sem intervalos. Sem meio termos. Sem tempo para pensar.

Um oceano tão profundo que mal consegui chegar a superfície, ao oxigênio.

Permaneci naquele estado de turbulência, doída.

Quase como um castigo por estar carregando a vida.

Como assim uma simples mortal dar a vida?

A vida que vem do prazer e se desprende na dor.

Só aos deuses é permitido parir sorrindo?

Criadores e criaturas. De mundos distantes.

Constelações, luas, desígnios.

Planetas alinhados.

Universo conspirando, consternando.

Alimentando uma realidade sútil e ao mesmo tempo divina.

Até que de mim partiu. Partiu a dor. Pari o filho.

Ficou o amor. Para repartir. Multiplicar. Adoçar os dias.

Uma nova vida para bordar.

Agulha a postos, linhas coloridas, tecido em branco.

Para bordar em flor, em folhas, em amor.

O menino bordará seus dias.

Puxa a agulha, faz um Ponto.

Pontos que prendem as laçadas.

Pontos de ziguezague.

De recomeços.

De vida pulsante e inteira.

Todinha pela frente.

Coluna para o portal Eu Tenho Visto.

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