26-04 2015

Brasil por todos os lados

por Cris Lavratti

Crônica publicada em março/2014

Pega ladrão! Nem era o cara, mas era negro. Foi preso. Black power, vestia camiseta preta, estava passando ali na hora errada. Correspondia a descrição, mas ninguém pediu para ver seus os documentos, e ele os tinha. Dezesseis dias na prisão, cortaram seus cabelos, tiraram a sua liberdade, mas não a sua força. Por sorte, levou só umas pauladas da polícia, não levou tiros, não foi a óbito, isso é considerado sorte no país da pilantragem. Teve sorte por ser artista e a mídia ter dado enfoque, foi solto. E se fosse mais um Zé ninguém? A mulher que o identificou incorretamente pertence a mesma mesma classe e também foi assaltada em sua paz, forçada, numa situação difícil, vai carregar a culpa para sempre. Que Deus a ajude.

Me responde uma coisa! Alguém aí acredita nos brasileiros? Porque um país só existe pelo seu povo. Toda essa  conta que estamos pagando é nossa e de mais ninguém. Não somos um povo politizado, somos conhecidos por país do “jeitinho”, da “malandragem”. Vota no fulano que é gente boa, ele é meu amigo, me pagou uma cerveja, me deu uma cesta básica, ufa, eu estava precisando. E ainda me prometeu uma graninha, vão criar mais um “Bolsa”. Não vamos precisar trabalhar. Os empresários trabalham e nós ficamos aqui, de bobeira. Até porque, crime para menor tem pena máxima de três anos, vamos aproveitar e aliciar alguns, eles fazem o trabalho sujo e nós ficamos aqui, tranquilos, afinal eles não vão mofar na cadeia.

Os caras estão com uma lei para ser votada: 16 anos já não será considerado menos… Oba! Não deu certo. Viva os Direitos Humanos, que por tabela ajudam a bandidagem. Mas espera, olha ali, amarraram o ladrão no poste e ainda deram uma surra. É a população fazendo justiça com as próprias mãos. Direitos Humanos, ajuda a gente, vai?! Nós somos gente também, humanos, feitos da mesma matéria prima, só a nossa moral que não fecha com a deles, mas também, nossa história foi difícil e triste, somos o que somos por sermos os excluídos da sociedade. Malditos empresários, com seus apartamentos, carrões, barcos, viagens.

A mãe trabalhou na casa de um desses empresários “bambambans” e eles fizeram questão de ajudar na nossa educação, até deram emprego pra gente. Tivemos a nossa chance, mas não suportamos ser menos, queremos ser muito mais que eles. A mãe chora, com uma tristeza latente. Ela sabe que se não fosse por aquela família, seria impossível criar os filhos. Ela chora pela nossa ingratidão. E nem a ouvimos. Ela é dramática. Mas o rapaz, filho da vizinha, fez diferente, ele deu valor. A mãe fala que ele sabe que é o empresário que gera emprego e ele não quer o mal do patrão, veste a camiseta. Ela diz que ele sim, é um cidadão de bem, vem da mesma favela que a gente, mas escolheu respeitar a si mesmo. Não está preso a sentimentos de vingança, é um cidadão livre, que vai encontrar a paz de espírito. A mãe tem mais orgulho dele que da gente, porque ele não se contenta em viver nas cordas do governo, ele trabalha e ajuda a levar o país pra frente, dá bons exemplos para seus herdeiros, diz que ele sim, está deixando um legado.

O Brasil por todos os lados, é um desabafo, de uma cidadã cansada de ver o circo pegar fogo, é o relato do que ouvimos pelas ruas, do que perece na boca do povo. Infelizmente, minha tristeza é profunda. O meu país está quebrado, quebrado de consciência, de moral, de respeito. Não sei mais em quem votar. A luz no fim do túnel está se apagando. O que vai ser desse ano eleitoral, o que vai ser da gente daqui pra frente. Estou com medo do futuro, quero fugir, ir para um lugar que me valorize de verdade. O meu Brasil, já não consegue mais. Estamos a dois passos de uma crise, como observamos na Venezuela e na Ucrânia. Triste realidade, mas nesse momento, precisamos desconstruir para nascer de novo, livre das milícias de Dom João e da malandragem de Cabral. Livres de nós mesmos.

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