14-11 2015

Ensaios sobre “Ensaios de Amor”

por Cris Lavratti

É encantador quando alguém lê um livro e lembra da gente. Uma amiga querida me deixou a obra Ensaios de Amor de Alain de Botton, afirmando que como eu escrevo muito sobre este sentimento tão cheio de incertezas, a leitura seria cabível aos meus próprios entremeios.

Estou ainda no início, capitulo 5, mas não me contive. Temas estruturais das relações humanas evidenciam o quanto somos parecidos na arte de amar. Alain aborda, em síntese, toda essa coisa que brota na cabeça de cada um de nós. Digo cabeça, pois os maiores boicotes provém dela, de nossos pensamentos e necessidade de julgar ou analisar as situações. Ah, se deixássemos o coração falar mais alto!

A sirene tocou duas vezes até aqui. A primeira, quando ele afirma: “Na maioria das vezes, atingimos nossos objetivos mais por coincidência que por planejamento. Afinal de contas, o que Chloe tinha feito para eu me apaixonar por ela?” Isso é tão real quanto lógico, mesmo nos trazendo um caminhão de dúvidas.

E vai além do clichê que dita o tipo que mais nos atrai. Até podemos olhar aquele homem sarado, com olhos claros, pele morena, mãos fortes e deixar cair o queixo. Mas aqui, eu falo de atração de verdade, paixão, muito mais que um corpinho bonito e um rosto perfeito. Aqui eu falo daquela coisa louca que nos induz a desbravar todos os pedacinhos do outro apenas com um olhar. E mais que isso, nos faz querer irromper a alma do amado, na tentativa de absorver ao máximo a essência dele, sem ao menos entender o que está acontecendo e o porque aquele simples mortal despertou na gente tamanho desejo.

Coisas do coração, como sempre inexplicáveis. Não adianta analisar, nem avaliar, nem tentar entender. Adianta é deixar que flua. Primeiro em nós e depois, caso a recíproca se faça de vogada, no outro.

E a sirene tocou de novo, logo em seguida, no mesmo capítulo. Perdida em meus devaneios enquanto lia, Alain arrematou: “Poucas coisas podem ser tão antiéticas para o sexo quanto o pensamento. O sexo é instintivo, irrefletido e espontâneo, enquanto o pensamento é cauteloso, distanciado e crítico. Pensar durante o sexo seria transgredir uma lei fundamental do intercurso, ter sido culpado de uma maldita incapacidade de preservar até mesmo aquela área incontável de pré-lapso.”

Uau! Quem já não se perdeu em pensamentos durante o ato de amar? Lembrei de uma cena do filme Do que as Mulheres Gostam, em que o personagem interpretado por Mel Gibson vai pra cama com a moça da cafeteria, interpretada pela atriz Marisa Tomei. Ele, com todo fôlego e ego envolve a presa. Ela, ao contrário, achando tudo sem graça, olha para o teto e pensa que deveria dar uma pintada no local, que estava cheio de manchas.

O depois pouco importa, o que chama atenção aqui é o tal lance do pensamento que nos desconecta do momento e nos tira a sintonia. O corpo está ali, mas a pessoa de fato, não. A distância real entre ambos torna-se enorme, será preciso uma ponte para reconectar, algo valioso. Alain tem toda a razão. O pensamento durante o sexo é totalmente antiético e transgressor.

Agora, vou para o próximo capitulo e se mais sirenes tocarem, eu prometo que volto.

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