26-04 2015

Eu tenho lido: A Festa da Insignificância

por Cris Lavratti

Dica publicada na minha coluna no portal Eu Tenho Visto

Como tudo na vida, existem livros e livros. Aqui não deprecio, apenas exalto a forma como cada um nos toca. Tem livros que no mesmo instante em que acabamos de ler, debulhamos impressões a respeito. É como se eles nos alimentassem em uma única tacada, com pensamentos que acabam tendo um grande significado, como se preenchessem um vazio.

Noutros, a complexidade acaba nos dando um outro tom. Estes também alimentam, mas precisamos digeri-los antes, precisamos absorve-los após a última linha, para depois compartilharmos com o mundo aquilo que ficou em nós.

E existe, também, aqueles livros que nos causam uma certa estranheza durante alguns capítulos. Porém, no desenrolar, acabam trazendo a tona o porquê daquela estranheza e transformam a história de tal maneira que ela parece ganhar fôlego. Ao final, necessitamos buscar as palavras certas para expressar o quão interessante tornou-se essa leitura.

“A Festa da Insignificância” de Milan Kundera, se encaixa perfeitamente neste último tipo. Curiosidades a parte, Kundera, é autor de “A Insustentável Leveza do Ser”, considerada sua obra prima, adaptada ao cinema em 1988 e, há mais de dez anos, desde 2002, quando lançou “A Ignorância”, não nos presenteava com nova obra.

 Começo a minha coluna com a frase “como tudo na vida” porque percebi este livro exatamente como o decorrer da vida, o íntimo e o cotidiano de cada um. A história não é contada de forma contínua, por isso da estranheza. As primeiras partes parecem desconexas, mas depois tornam-se significativas de tal maneira que tudo passa a fazer sentido.

Quem nunca se deu conta dos significados depois dos acontecimentos, como se as fichas caíssem. Quem nunca ensaiou uma conversa com alguém que já não está mais nesse plano ou simplesmente nem sabemos onde está, como se esse papo fosse extremamente real e esclarecedor. Pois então, assim é a vida.

O livro conta a história de quatro amigos, Alain, Ramon, Charles e Calibã, numa Paris de hoje, mas com uma fixação, que mais lembra uma fuga, em uma União Soviética do passado, da época de Stálin. Realidades que nada tem em comum, a primeira vista, mas que podem ser constatadas na figura de um ser humano, que contaminado pela tamanha crueldade que circula o mundo, esqueceu de rir, esqueceu que o bom humor é inerente a existência.

Em meio a divagações, acerca do poder de sedução das mulheres estar no umbigo,  e não nas bunda ou nos seios, trazendo em si o valor da individualidade. Em meio a conversas sobre a história das “Vinte e Quatro Perdizes” de Stálin e a repercussão perante seu pequeno grupo. Em meio a um câncer inexistente, uma mentira inexplicável e o restante de tudo aquilo de bom que o narrador nos entrega, a grande lição da insignificância ganhou destaque, pelo menos para mim.

No livro, ele explica que “quando um sujeito brilhante tenta seduzir uma mulher, ela acha que tem que entrar em competição. Também se sente obrigada a brilhar. A não se entregar sem resistência. Ao passo que a insignificância a libera. A liberta das precauções (…) A torna despreocupada e, portanto, mais acessível.

Achei brilhante! Uma ótima leitura para essa época de tantas insignificâncias, como o Carnaval. Boa leitura!

capa_livro-2

Serviço:

A FESTA DA INSIGNIFICANCIA

Autor: KUNDERA, MILAN

Tradutor: BULHOES, TERESA

Idioma: PORTUGUÊS

Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

Assunto: Literatura Internacional – Romances

Edição: 1

Ano: 2014

Investimento: R$36,00

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