26-04 2015

Memórias não nos pertencem

por Cris Lavratti

Memórias despedem-se de nós e não o contrário. Esforços são em vão. Tentativas? Tampouco. Por mais que a busca se perpetue nas gavetas da consciência,  o nada é repetitivo e a negação constante.

“Escolho, eu, que esta lembrança não é bem vinda. Nem aquela, que arrebenta com minhas tranças de esperança. E a outra, idem. Poderiam ir embora, todas as três, juntas e de mãos dadas. Quanto a mim, ficarei bem mais leve, agradecida.”

Mas não adianta remoer. O rememorar não parte de quem o vive e, sim, dele mesmo. É um acesso tão íntimo que a chave está nas ausências infinitas do que chamamos de inconsciente.

Repentinas ilusões de adentrar neste espaço inócuo, cheio daquilo que sem cabimento insiste em permanecer, dar o adeus definitivo e trancar a porta para todo o sempre, permeiam os pensamentos e eu pergunto o por quê de tanto sofrimento. O por quê desta clausura que suja e arrebenta os caprichos da minha alma.

Desejo o rompimento. E o que se apresenta é âncora, numa musica, num perfume, numa brisa. Pequenos acontecimentos que nos ligam a esses lugares profundos, quiça considerávamos, esquecidos.

O partir para que baste, necessita desaguar por vontade própria. Ele só transmuta na acidez de si mesmo, para que assim, nos liberte de nós mesmos. Não adiantam lágrimas, nem risos, nem palavras, nem tiros, de nada adianta o vigor. As memórias não nos pertencem. São energias momentâneas e permanentes. Por si, decidem o que fazer. Por nós, o que fica é o aborrecimento.

E se por acaso é das boas que passamos a falar, o resultado é o mesmo. Porém, o efeito da delonga, é fabuloso, nos enche de vida e a entrega com clareza, com brilho nos olhos, coragem para seguir em frente e a doçura do amor, companheiro de jornada.

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