26-04 2015

Qual é a tua pilantragem?

por Cris Lavratti

Crônica publicada em fevereiro/2014

O Brasil é o país da pilantragem. A escola do brasileiro é a pilantragem, a malandragem, a roubalheira. Somos o país da inversão tacada de valores. Quando o marginal é “tadinho” porque teve uma infância “tadinha”. Uma ova! Já passamos a mão na cabeça do corrupto quando ele nasce. E o “riquinho” que não teve uma infância difícil como o “tadinho”, mas arcou com as paradas da facilidade, da falta de carinho e orientação. Não estou aqui para generalizar, acredito que tem gente muito boa no meu país, mas que tá complicado isso tá.

O Brasil é o país da pilantragem. Não aquela cantada por Simonal, “nem vem que não tem”. A pilantragem de Simonal, de Carlos Imperial, de Cesar Camargo Mariano e Nonato Buzar, era outra. Um sambinha tocado em compasso 4/4, com balanço, pegada e muita onda. Numa época em que a música dava passos largos ao redor do mundo, com letras e ideais fortalecidos por grandes personalidades, música com conotação política, com voz, com cadência. Música de verdade, diriam alguns e eu assino embaixo.

O Brasil é o país da pilantragem, da boca pequena, no rolezinho, do apagão, da greve descontrolada, da deficiência emocional, da falta do que fazer. O país não tem vergonha na cara, o povo não tem vergonha na cara. O que é o Brasil, senão os brasileiros. Está difícil de digerir o teu país, brasileiro? Começa por ti então. Olha pro lado, transforma. O lance tem que começar em casa, na família, na educação e para isso, me desculpem alguns, mas não tem a ver com grana, tem a ver com índole, com integridade, com generosidade.

A pilantragem faz parte do dia a dia. Ela começa como quem não quer nada com atitudes bobas e vai aumentando, “ninguém tá olhando, então eu jogo o lixo na rua”, “ninguém tá olhando, eu pego esse picolé sem pagar”, “ninguém tá olhando, eu chuto o cachorro”, “ninguém tá olhando, eu passo o sinal vermelho”, “ninguém tá olhando, eu faço um racha, atropelo e fujo, espanco meu filho, traio o meu marido, dou beliscões nos meus avós, faço misérias”.

O Brasil é o país dos aproveitadores. Se é preciso ninguém estar olhando, a conta está errada, a atitude é condenável, não importa a proporção. O brasileiro sabe que tá fazendo errado, mas não para. Vira político, é eleito, continua preocupado com o “ninguém está olhando”, até que tudo fica muito fácil, o bolso fica muito cheio e o cara passa a não se importar tanto com os tais olhares, ele começa a escancarar e a pagar aos colegas brasileiros para ficarem quietos, paga bolsa isso, bolsa aquilo, paga mídia, mente descaradamente e todos acreditam, afinal tem comida na mesa e aí o que não importa são os valores, vale a pena se corromper, afinal o filho tá com fome, a mulher quer fazer compras em Miami. Tanto faz se o dinheiro no bolso é para o miserável ou para o new rich, ele traz uma carma enorme para o país. Esse mesmo, dos brasileiros.

Mas vou fazer aqui a defesa aos honestos, eles existem, mas cuidado, estão em extinção, são muito poucos, são brasileiros que trabalham para ganhar o pão, não estão encostados em governos falidos, estes sim, são honrados, cidadãos de bem, que mesmo sendo roubados pelos seus conterrâneos, em todos os sentidos, inclusive com impostos absurdos, continuam mantendo a linha da consciência tranquila, do sorriso verdadeiro. Estes caras criam filhos honestos, dão base e educação. Eles sabem que “lá fora” nas ruas, seus filhos serão tentados, mas confiam naquilo que ensinaram a eles e rezam para que nada de ruim aconteça.

O Brasil, dos brasileiros é um só! Seja ele, da pilantragem, do “oba oba”, do ninguém está olhando, dos corruptos. Seja ele, dos homens de bem, dos honestos, da verdade, do respeito, da consciência tranquila. Somos um único país com uma diversidade tremenda de raças, culturas, religiões, regiões, natureza. Como podemos ser tão burros e corrompidos, como podemos ficar tanto tempo calados diante de tanta malandragem, bandidagem, corrupção.

Prefiro ficar com a pilantragem de Simonal e viver mesmo em um país com integridade. Eu prefiro!

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