26-04 2015

Tum-tum. Desembarque marcado

por Cris Lavratti

Crônica publicada em junho/2013

Tum-tum. Os ponteiros do relógio. Tum-tum. Meu coração descompassado. Tum-tum. É hora da missa. Tum-tum. O sino começou a tocar. Tum-tum. Carros afobados no engarrafamento. Tum-tum. Uma mensagem no celular. Tum-tum. O paciente na U.T.I. Tum-tum. Os teclados do computador. Tum-tum. A campainha tocou. Tum-tum. Embarque imediato.

E assim a vida passa, urge, grita. Assim vão-se os dias, desaparecem as noites, ficam as lembranças, mas onde foi parar o silêncio?

Eu abro um livro e tum-tum. Vou descansar e tum-tum. Entro no banho e tum-tum. Vou preparar o jantar e tum-tum. Não importa da onde, não importa quem, sempre teremos uma intervenção, um barulho, um hiato.

Lembro da música: “vamos fugir deste lugar, baby”. Que vontade que dá!

Começo a escrever e tum-tum. Ligo o som e tum-tum. Sento no cinema e tum-tum. Alguém sempre esquece de desligar o celular. Que saudade do silêncio!

A obra ao lado é tum-tum sem parar. Construções deem um tempo, nosso sábado deveria ser sagrado. Ligo o ar condicionado para abafar os ruídos lá de fora! Pronto, e não é que eles começam do lado dentro. Tum-tum. O tele marketing insiste em telefonar, madrugar.

Quero uma semana no meio do mato, numa praia bem longe, num cantinho do planeta. Para desopilar, e mergulhar somente em ruídos naturais que em nada atrapalham, atravancam e trancam um momento, uma hora, uma atitude.

Quero desligar o celular, abrir um livro, um caderno, ler, escrever. Ligar o computador, mas sem internet. Mergulhar, escrever mais. Criar, me entregar, recriar e me transformar.

Quero colocar os pés no chão, na grama, na areia. Deixar somente o som do mar, dos pássaros e da boca amada beijarem os meus ouvidos. Quero e posso. Quero e preciso. Para mim, isto é necessário. O silêncio me alimenta. Tum-tum, agora, só se for o do meu coração, no compasso certo, na cadência da calmaria morna de Vinícius, dos poetas baianos, de Itapuã.

Primoroso um respiro de pureza, para voltar renovada, reciclada, retomada, ao dia a dia arrebatado de barulhos secos e altos, dos arranha-céus e do asfalto inerte das grandes cidades. Tum-tum. Desembarque marcado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *