A magia do Natal

Conto de Natal publicada em 2013

Apressada, subiu as escadarias da entrada, os pés estavam tão velozes quanto os pensamentos. Adentrou a porta principal do saguão do edifício, percebeu que o elevador ainda contava os andares de baixo para cima, até voltar, a demora seria companheira. Resolveu continuar pela escada, só mais alguns lances e pensou alto: Quem sabe assim, aprendo a subir na vida?

Sabia que a data era especial, mas estava distraída com a precipitação que lhe era habitual, sabia tantas coisas, mas no último ano, esqueceu de tudo, deixou que os dias a engolissem por completo. Não conseguia mais sentir o poder da vida, apenas passava por ela, afobada.

Já no final do primeiro lance. Vozes e risos doces invadiram seus ouvidos. Parou por alguns instantes, observou as portas fechadas dos apartamentos. Contemplou o momento e absorvida por seus pensamentos, deu um chega pra lá e continuou a subir, com convicção.

No final do segundo lance, de novo. Vozes, risos. De todas as idades, crianças, adultos, idosos. Foi tomada por um torpor. Não conseguiu se mexer. Aquele som tocou fundo em sua alma novamente. Arrebatou o choque e levou as mãos ao rosto. Como poderia estar assim?

Já com certa lentidão, continuou a subir os degraus, como se estivesse indo em direção a si. A cada andar, o cenário se igualava, a cada andar, as tais vozes, a tal felicidade. Tudo acontecia por trás daquelas portas fechadas.

Uma gota de mar brotou de seu olhar, uma gota ácida que ardeu seu rosto. Sentiu-se a própria porta. Fechada. Inerte à vida. Parada. Seu rosto ardeu novamente. Algo em seu peito a incomodava, uma dor aguda, física até. Levou a mão direita ao coração, conferiu se ele ainda batia. Assegurou-se que sim, ele pulsava. Sua boca enrubesceu, as lágrimas antes em gotas esparsas davam lugar a uma enchente sem precedentes.

Chegou enfim, à sua porta. Ah! As vozes, aquela música. Apercebeu-se ainda menina, sem os anseios da idade. Segurou firme na maçaneta, girou com cuidado e entrou com o pé direito. Compreendeu que aqueles sons a levavam para um lugar muito especial, ao âmago dos sentimentos. Constatou que a essência, por mais tempo que passe, não muda.

Era Natal. E ela estava de volta ao lar, de volta para ela mesma, para sua alma tão querida. A magia daquela noite se manifestava em doses homeopáticas de amor, iluminando as ideias, provocando a vida, avivando os sentidos na concepção do que é verdadeiro, na força do entendimento, do aconchego, do abraço, da felicidade.

Viu sua mãe na cozinha, seus irmãos sorrindo ao lado do pai. Os avós trocando dicas de remédios para o reumatismo, primos e tios alegres em volta da árvore. Notou que fazia parte daquilo tudo. Tomou as rédeas do tempo. Finalmente! Estava do lado de dentro.

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