26-04 2015

Ajustando o volume

por Cris Lavratti

Crônica publicada no livro Santa Sede – Crônicas de Botequim – Safra 2012

Na vida, tudo parece acontecer junto. Se morre um, pode ter certeza que terão mais uns três enterros pela frente. Se casa um, serão mais alguns casamentos naquele ano. Enfim, vacas gordas e magras vêm acompanhadas do rebanho. Mas, obviamente, a torcida vai para as vacas gordas. Nessa hora, não é a estética que predomina, e sim, a saúde, como diria minha avó materna.

Naquele ano, as coisas estavam indo bem no Condomínio Matriz. Já estávamos em abril, e nada. A paz reinava. Pensei com meus botões: que tranquilidade. Como síndica do condomínio que era composto por três blocos e sessenta e seis apartamentos, não estava acostumada com aquele cenário. Será que finalmente as pessoas tinham aprendido a conviver?

De repente, toca a campainha. Já passava da meia noite. Era o vizinho do bloco ao lado. Indignado. Bufando, reclamando do barulho ensurdecedor do apartamento de cima. Um casal apaixonado em lua de mel. Todas as noites era aquele martírio. Dois martírios. Três martírios. Eles gemiam, gritava, sorriam e ele, pobre coitado, sozinho, não conseguia dormir.

Pois bem, me dirigi ao tal apartamento. Toquei a campainha e pedi encarecidamente para que eles não fizessem tanto barulho. Sinceramente, era quase como pedir, vocês podem ser felizes com menos decibéis, por favor? Eu ria por dentro. Era cada situação bizarra. Mas tudo bem, era o meu papel.

Na noite seguinte, a mesma coisa. O vizinho sozinho, solteiro, reclamando. Prometi que mandaria uma carta ao casal comunicando que se eles quisessem continuar sendo felizes, iriam ter que pagar uma multa. O vizinho não gostou da minha brincadeira. Deixou escapar um sorriso amarelo e foi embora. Naquele momento eu juro que vi um rebanho de vacas macérrimas atravessando o meu apartamento.

E a situação se repetia, noite sim e outra também. Até que na reunião de condomínio veio tudo à tona. O vizinho solteirão e infeliz, resolveu colocar a boca do trombone e perdeu a compostura. O casal pôs-se a rir veementemente. A situação esquentou. O clima era tenso. O burburinho não parava. Sobrou para quem? Para a síndica.

Subi no banquinho, olhei para aquele rebanho inteirinho e disse, com voz firme:

– Senhores condôminos, Mario Quintana recomenda: “Se tu me amas, ama-me baixinho, não o grites de cima dos telhados, deixa em paz os passarinhos, deixa em paz a mim”. E tenho dito.

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