22-04 2015

Enfim, grávidos

por Cris Lavratti

Crônica publicada em novembro/2012

Com os braços abertos, ela contemplava o horizonte. A brisa morna era um convite para os novos tempos. Seu corpo, agora, abrigava dois corações. O sorriso largo ganhou forma. O amor era maior que o mundo.

Felicidade. Plenitude. Medo. Os sentimentos se misturavam. Luísa nunca mais seria a mesma. A maternidade tinha deixado de ser um sonho, era real.  A vida estava lhe dando o maior presente de todos: uma nova vida.

Precisava contar a João. Eles iriam ter um filho. Tinham planejado isso há tempos. Contratempos à parte. Finalmente, eles haviam conseguido. Pensou e achou prudente contar pessoalmente. Olho no olho.

Ligou para a mãe dele. Lembrou que ela ainda guardava de recordação o primeiro sapatinho do filho. Levaram para a lavanderia. Conseguiram pegar no mesmo dia.

Chegou mais cedo em casa. Preparou um jantar especial. Descongelou o bolo do casamento. Colocou o sapatinho em cima. Tomou cuidado para comprar umespumante sem álcool para ela e um vinho para ele. Preparou uma mesa digna daquelas de revistas de decoração.

João costumava chegar por volta das 20h. Mas o relógio parecia brigar com ela. O ponteiro se arrastava. A ansiedade realmente não é amiga.

Haja paciência. Os minutos se multiplicavam. Era quase meia-noite. A comida estava fria. A bebida estava quente. E Luísa, fervendo.

De repente, a maçaneta se mexeu. Seus olhos fixaram a porta, arregalados. Ele, finalmente, havia chegado. Pé por pé, tentou entrar sem ser percebido. Mas era impossível. Os holofotes o fitavam. Entre eles, somente o bafo da bebida.

Que cenário!

João só pensava que iria ouvir poucas e boas. Fez aquela cara de homem que trabalha demais e precisa relaxar com outros da mesma espécie. Soberbo.

Ela, ironicamente, pensava que os dias de “farra” tinham chegado ao fim. Fez uma cara de Amélia, como se entendesse a situação. Só lhe vinha à mente a frase inspiradora de Balzac: o coração de uma mãe é um profundo abismo, no fundo do qual encontrarás sempre o perdão.

Fez-se espanto. Até que Luísa sussurrou: enfim, grávidos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *