Linhas da Vida

Crônica publicada em agosto/2014

Toda a semana eu pego a estrada, tenho alguns compromissos em cidades diferentes, mas que ficam perto uma da outra. As vezes decido por um caminho, as vezes por outro, gosto de mudar o trajeto, o destino é o mesmo, mas a experiência, diferente, todas as vezes.

Nesta última semana me dei conta de que a estrada acaba sendo uma vida paralela à cidade. Enquanto eu a contornava, o cotidiano acontecia costumeiro naquele mesmo instante, pessoas indo almoçar, levando os filhos para a escola, outras trabalhando, lavando a louça, tirando uma sonequinha, passeando com seus bichinhos de estimação e assim por diante. E a estrada ali, como se fosse a orelha de um livro, separada do miolo, circundando aquela riqueza de detalhes e até servindo para marcar as páginas, mas com um tanto de liberdade. Acredito que a estrada tem asas.
Neste universo paralelo em que me encontrava, tinha tudo, menos rotina. Tenho a ideia de que a rotina se aplica a cidade, na estrada tudo muda. Mesmo para os viajantes de carteira de assinada. Claro, isso não é um paradigma, estanque. A vida urge e pulsa onde ela estiver. Mas é a minha impressão, é como me sinto quando habito em uma e em outra.
No fim das contas, serão sempre essas linhas infinitas que nos fazem ir e voltar, dentro e fora da gente mesmo. Não falo em linearidade, falo em caminho, em união e até rompimento. As linhas das mãos que prevêem o destino, as linhas no rosto que aplicam tempo a nossa vida (algumas formam vincos tão fundos que inundam ao cair de uma simples lágrima e acabam por afogar o dono que dela se atreve), as linhas de um jornal recheadas de letras, que nos trazem as notícias, as linhas de um romance que nos fazem viajar sem sair do lugar, as linhas do pensamento que sintonizam a outros e podem servir de trampolim ou de poço, as linhas que se unem ao darmos as mãos, as linhas que se chocam com aquele soco no estômago, as linhas enraizadas que dão vida as plantas, as linhas das algemas e ancoras que nos prendem a vidas sem colorido, as linhas da coleira que seguram o cachorro, as linhas dos dedos que escrevem poesias, músicas, óperas. As linhas do horizonte que transbordam o universo em água ou em terra. A linha do cordão umbilical que alimenta o bebê que está para nascer, as linhas invisíveis da eletricidade, dos telefones, das nuvens. As linhas que aqui eu escrevo e que vão chegar até você.
A realidade pode ser paralela. Uma hora estamos dentro, noutras, ao redor. Mas o principal nisso tudo é manter a essência viva, manter o brilho, o foco e a fé, independente de onde. Porque as linhas que nos conectam com a gente mesmo, são aquelas que nunca devem se partir.

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