O que é certo?

Crônica para o Portal Eu Tenho Visto

Certo é um adjetivo. É algo exato, sem erros, que não é mentiroso, que exprime a verdade. Pois bem? Já nascemos com a capacidade de discernimento do que é certo e errado – ou ao longo da vida – o meio e a família irão nos apontar as diretrizes e a partir delas, saberemos o que é certo e o que é errado? Moral e valores andam próximos. Valores aprendemos, mas acredito piamente que o gene da moral já vem com a gente. Senão não teríamos casos de pessoas corrompiveis em famílias idôneas e vice-versa.

Diante disso, o que dizer do assassinato do médico Jaime Gold, nesta semana, por um menor de idade, de 16 anos? A matéria publicada no jornal Extra, no Rio de Janeiro, exalta a condição de vítima do guri, pois ele teve uma vida medíocre e foi abandonado pelo pai, pela mãe e pela escola. Ou seja, já que a vida dele não foi fácil, ele está certo? Um menor, que já tinha sido pego roubando aos 11 anos na Lagoa Rodrigo de Freitas, também no RJ?

Será mesmo, que motivos como esse convencem? Será mesmo que por ele ter tido uma vida cruel, pode matar quem quiser? Será mesmo que ele não sabe o que é certo e errado?

Li por ai, nas redes sociais, algumas linhas que argumentavam: “se ele não dá valor a própria vida, dará a valor a vida de outro?” Quer dizer então, que  em tempos de crise, se eu não tiver como colocar comida na mesa, tenho o mesmo aval pra roubar? Afinal, a culpa é da sociedade, que não me dá condições?

Lendo o blog do Reinaldo Azevedo, na Veja, ficou ainda mais claro. Segundo ele, “o lixo moral dos nossos dias é asqueroso. Ele transforma algozes em vítimas; vítimas em algozes. Inverte a lógica das responsabilidades.” Ele ainda cita um trecho do livro Pobres de Mimados – As consequências do sentimentalismo tóxico; do psiquiatra inglês Theodore Dalrymple: “A exibição de vícios tornou-se prova de que [o homem] foi maltratado. Aquilo que se considera defeito moral tornou-se condição de vítima, consciente ou não, e, como a humanidade tinha nascido feliz, além de boa, a infelicidade e o sofrimento eram igualmente prova de maus-tratos e de vitimização. Para restaurar no homem seu estado original de felicidade e bondade, era necessária, portanto, uma engenharia social em larga escala. Não surpreende que a revolução romântica tenha levado à era dos massacres por razões ideológicas”.

Essa anástrofe, cega a maioria das pessoas, que compadecidas e alimentadas pela culpa, acabam, junto com os humanistas, passando a mão na cabeça dos imorais. Vivemos uma época de grande corrupção no nosso país e mesmo assim, uma parcela considerável da população invoca o discurso de que se “todo mundo faz”, qual é o problema?

De um lado, chefes de Estado chorando por um traficante morto na Indonésia. Do outro lado, estes mesmos chefes de Estado, nem se pronunciam quanto ao assassinato do médico. Teremos luto nacional para ele?

Muito triste é constatar essa discrepância de valores, que mostram exatamente o jeitinho brasileiro em tudo. Certo mesmo, é que se existe uma vítima de fato, é o cidadão comum, que trabalha e paga os impostos em dia, para um governo corrupto, que não repassa esses impostos para a educação, a saúde e segurança e que ainda corre graves riscos de morrer em uma esquina qualquer do país. Sem mais.

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