Reviver, para escrever

Crônica para o Portal Negócio Feminino

Paro em frente a tela do computador e me pergunto: sobre o que escrever? Olho pela janela, observo as folhas das árvores, os barulhos da cidade, da obra ao lado, dos carros, do asfalto. Olho para dentro. Primeiro, a escuridão. Sinto meu coração pulsando e é partir dele, que começo a perceber o que me habita. Minhas ruas internas me levam a deslizar por outros tempos, pelas lembranças. Me vejo criança, passeando pela rua Liberdade em Porto Alegre, onde morava na infância, com a minha Caloi Ceci dourada, de vestidinho azul e vermelho e com o cabelo ao vento. As folhas das árvores dançavam como na minha janela. A conexão do agora com o ontem foi instantânea.

Estava aprendendo a andar sem as rodinhas. A mão que segurava o banco para eu não cair, era firme e confiante. Não consigo ver o rosto de quem me ajuda, transito entre minha mãe, meu pai e meu avô materno. Acredito que os três estavam ali, vibrando com a minha conquista.

Mais uma vez, estava aprendendo a me equilibrar na vida. Primeiro, quando comecei a andar, por aquela mesma rua. Depois, com minha saudosa Calói. E no decorrer da jornada, tantas outras se fizeram, com essa tal “esperança equilibrista”.

Todas as minhas tentativas e acertos, lá do início da vida, aconteciam sabiamente, na rua de nome livre, Liberdade. Melhor nome, impossível. Amo a liberdade e todas as sensações que nos levam até ela. A brisa, as ondas do mar, o perfume do tempo, colocar a mochila nas costas e sair por aí, amar e amar, abraço que é laço, ler e ler sem fim. A estrada, o mato, a cachoeira, uma boa conversa, dançar e dançar, olhar no olho, perder-se num beijo, tomar banho, sorrir e sorrir, conhecer lugares novos, mergulhar na minha casa, escrever e escrever.

Tudo isso me traz e me dá liberdade. Poder relembrar, acessar, transbordar cada momento da minha vida e a partir de tudo que fui e que sou, trilhar meu futuro, no agora.

Boas memórias nos trazem fôlego, alimentam. São como oxigênio puro adentrando nossos pulmões. São como bálsamo. Como flor, orvalho, oração. Boas lembranças nos recordam de nós mesmos, de quem somos. E se por acaso nos perdemos, nelas nos reencontramos.

Abro meus olhos com um sorriso no rosto, volto-me à janela e dela para a página em branco, na tela do computador. Começo a dedilhar as palavras e compreendo, que “o show de todo o artista, tem que continuar”.

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