26-04 2015

Tenho pra mim

por Cris Lavratti

Crônica publicada em dezembro/2013

Tenho pra mim que a madrugada é fugaz. Ela guarda consigo muitos segredos, alguns medos, anseios, algumas alegrias e amores. Percebo um tanto de prazer e um muito de lágrimas. O silencio da escuridão pode ser amigável, ou então um martírio. Os pensamentos ganham impulso em sua companhia, voam tão longe por sonhos ou pesadelos que acabamos por nos confundir com o aquilo que é e não é realidade.

Tenho pra mim que a madrugada é uma grande brincalhona. Ela esconde a luz, ilude nossos ouvidos, traz a tona sensações de perigo, inquietude, calafrios. Mas também pode trazer apenas descanso, travesseiro e aconchego. Dependendo do estado de espírito ela ganha força por volta das quatro da manhã e bate em nossas portas mais íntimas, nos arranca da inocência, arranhando nossa visão e nos enforcando com suposições.

Tenho pra mim que a madrugada é inusitada, porque apesar de tudo que ela traz, tem hora marcada para chegar ao fim. É como na vida, apesar dos tropeços e das alegrias, das ilusões e das expectativas, das neuroses e das certezas, ela finda com o raiar do sol, com uma cor alaranjada, com um azul inebriante, afastando os “urubus”, adormecendo os morcegos e despertando nossas verdades. A noite cede lugar ao dia e com ele as especulações vão embora, ficam somente os fatos, a luz e o tempo que ainda temos para nos restabelecer com a divindade.

Tenho pra mim que o dia é um presente. Pode começar como um gato preguiçoso, como uma criança sorridente ou como um adulto mal humorado. Pode começar com dor ou com amor. É como se tivéssemos comprado as passagens para o paraíso, uns escolhem ir por um caminho, outros pelo outro. O destino é o mesmo, mas o caminho que leva, não. O cobrador avisa: “peguem seus lugares!” E nós, um tanto certeiros, sentamos nas poltronas designadas e mesmo sabendo o que nos espera pela frente, carregamos uma incógnita: como reagiremos diante do acontecido? Para saber, só vivendo.

Tenho pra mim que o dia é como uma roda gigante, ele tem um tempo certo para completar o ciclo, uns param no topo, outros lá embaixo, mas todos saltam dela mais cedo ou mais tarde. E o sol se despede da mesma forma que volta a brilhar, embaindo nossa alma, nos fazendo acreditar que ainda podemos fazer mais por nós mesmos, mas o tempo se foi. A noite chegou, a lua amarelada lá no alto, até lembra o sol. As estrelas envaidecem a cortina escura como velas acesas, mas não chegam nem perto do astro-rei. Nem a lua é capaz, ela muda de forma de tempos em tempos e cá estamos nós, novamente com a madrugada, torcendo para que ela passe ou aproveitando o que ela nos dá.

No final das contas, acabamos por usá-la como nos convém. Usamos o dia. Usamos a noite. Simplesmente usamos o tempo. Nem todos são assim. Alguns vivem o tempo e não perdem a vida. É o caso daqueles que mesmo nas dificuldades, carregam no rosto um sorriso, no olhar a resignação e nos lábios a sinceridade. São lados da mesma moeda, porém distintos, como aquele comboio com destino ao paraíso, cada um escolhe o caminho que melhor se afina com a alma e segue em frente. “Caminhando e cantando e seguindo a canção”.

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